Na Bento Freitas
putinhas pobres, de guarda-chuva.
cheiro de mijo.
Ô, dó!
(foto: Giulietta Massina em Noites de Cabíria, de Fellini)
– Hare Krishna, caramba!
– Ah, mas esse modelo está saindo de linha.
Meninas:

Mas o Zé Luís era danado. Éramos uma classe só de meninas, que começavam a descobrir o mundo. Rápidas, palhaças, engraçadas e dispersas como bolinhas de azougue, e ele sabia disso muito bem. Soube fisgar-nos com o anzol do humor fino, da ironia rascante d'O Alienista. Nada de pedir resumo, resenha, que amor não nasce da razão. Os capítulos foram lidos pouco a pouco, discutidos e dramatizados em classe. Não se tratava de dourar a pílula, fazer-nos engolir o remédio ruim disfarçado em chocolate, essa bobagem de “aprender brincando”, como se não fosse tudo parte de uma mesma coisa. Era acompanhar-nos num mergulho de cabeça na fina ironia, no fundo bem próximo ao dessa idade “inquieta e duvidosa”, preparando-nos para o amargor com o qual a vida estava prestes a nos confrontar, talvez aos quinze, talvez já. Dali saí pronta para o Brás Cubas, e estava feito: era amor, e foi pra sempre.
Entre os livros que havia na biblioteca infantil, os desta coleção estavam entre os meus preferidos. Ficava horas a fantasiar sobre a idéia de que houvesse pessoazinhas minúsculas vivendo no nosso jardim, e que eles usassem, transformados, os objetos descartados por nós. Acho que é um tema que fascina crianças de todos os tempos; curti também a “Polegarzinha” de Andersen e séries de TV como “Terra de Gigantes”. Volta e meia reaparecem outras variações, em livros, TV e cinema.



Nos últimos dez dias todo o mundo tem falado sobre o Irã: a fraude nas eleições, os protestos nas ruas e a violência contra os manifestantes, que chegou a fazer vários mortos. E como uma coisa leva à outra que leva à outra que leva à... acabei assistindo e me emocionando com o filme de animação Persépolis, baseado no livro de mesmo nome da iraniana Marjane Satrapi. E daí simplesmente tinha de ler o livro. Pedi anteontem, chegou ontem, e tenho esse defeito: quando um livro me pega não consigo largar até chegar ao final. Se é inevitável interromper a leitura, passo o dia com a história na cabeça, ansiosa para retomar. O ruim é que nem bem o livro chegou e já estou quase me despedindo dele.


